quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Crônica Dia de Finados


Semeando histórias... Colhendo vivências 
Crônica Dia de Finados

A morte é o fim ou o começo? Fim da vida material? Começo da vida espiritual? Mas vem cá, você tem espírito ou alma? Espírito e alma são as mesmas coisas? A morte seria uma transição? Transição do que e para que? Como você imagina a vida pós-morte? Te assusta ou te acalma? Finados é um dia triste ou alegre? Em finados, celebramos a vida ou a morte? O perder ou o ganhar?
Essas perguntas da vida adulta não faziam parte do meu imaginário enquanto criança... Finados era um dia que a família se reunia, um dia de passeio ao cemitério, um dia de ver gente diferente, de ouvir histórias e de comer coisas gostosas... Hoje, incrivelmente, consigo perceber como crianças pensam diferente de adultos. Realmente, eles possuem um mundo mágico, todo especial! Vou tentar voltar a ser criança e escrever minhas lembranças do que eram os dias de Finados em Pompéia. Vem comigo!!!
O meu envolvimento com essa data começava uma semana antes, quando meu pai me chamava para ir com ele no cemitério ajudar na limpeza e pintura do túmulo do meu avô. Passávamos quase o dia todo labutando por ali. Ele me contava muitas histórias... De quando era criança na fazenda onde trabalhava, das viagens que fazia e da vida na boleia do caminhão. Mas tinha algo que sempre ele repetia: que ele tinha perdido o pai dele com 2 meses de idade. Acho que nem ele, nem eu, sabíamos o que estava por trás de todos esses relatos, a construção de um amor incondicional entre pai e filho... Penso hoje, o que faz uma pessoa cuidar a vida toda de um túmulo de alguém nunca conheceu? Se isso não for amor, o que é então?
No feriado de Finados, a gente acordava cedo e ia a família toda para o cemitério. Tínhamos que ir antes do Sol esquentar e da chuva chegar no final da tarde, uma vez que todo Finados chovia! Chegando lá, na porta do cemitério, comprávamos as velas com os Vicentinos. Aprendi com minha mãe, que os Vicentinos era um grupo religioso que ajudava as pessoas necessitadas e o dinheiro arrecadado dessas vendas era convertido em alimentos para as famílias assistidas.
Ao entrar no cemitério, eu e meus irmãos, passávamos por um túmulo que tinha uma estátua de Jesus com a mão estendida. Pegávamos nessa mão e pedíamos a benção. Abençoados, iríamos andar por todo cemitério... O primeiro túmulo que visitávamos era do meu avô, meus pais ensinavam que era necessário fazer uma oração em silêncio e depois rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria. Algo que eles sempre nos recomendavam era não pisar nos túmulos de ninguém, pois as famílias não gostavam e o enterrado também não!
Algo que eu lembro que eu fazia durante o passeio no cemitério era contas de matemática! Passava pelos túmulos sempre lendo as placas, identificando as datas de nascimento, falecimento, quantos anos a pessoa viveu e há quanto tempo que ela já tinha morrido. Era uma disputa ferrenha com meus irmãos para descobrir o túmulo mais antigo! Outra coisa que também chamava minha atenção era as comidas que eram colocadas em cima dos túmulos de alguns descendentes de japoneses. Confesso que eu tinha uma vontade enorme de provar alguns daqueles quitutes!
Queimar velas no Cruzeiro também era uma diversão! Ficava acompanhando as velas derretendo e fazendo aquele rio de cera. Não tinha como não comparar com as lavas de um vulcão! O Cruzeiro também era o local onde as pessoas colocavam imagens quebradas. Um dia, ouvi um homem dizendo que essas imagens eram frutos de atividades que alguns indivíduos usavam para chamar espíritos. Deu um medo danado!
Lembrando dos medos que o cemitério trazia, eu e meus irmãos não passávamos perto de túmulos rachados, a crendice popular afirmava que eram mortos que tentavam sair dos seus aposentos! Mas nada se comparou ao dia que minha tia me pediu para olhar um copo com água que tinha dentro de um mausoléu. Neste, havia uma marca, que hoje sei que é da água evaporada, mas na época, acreditei que o morto tinha bebido um pouco dela. Fiquei receoso por anos!
Não posso deixar de comentar das flores que enfeitavam todo o cemitério! Tinha de tudo quanto é jeito, as naturais, as de plástico, as coloridas, era uma infinidade... Quando passava por algum túmulo e eu percebia que não tinha flores, nem velas, pegava alguma de algum túmulo florido e deixava por lá. Além de acender uma vela para o enterrado. Acreditava que era apenas uma forma de socializar a lembrança, o bem querer!
A visita ao cemitério acabava com um copo de garapa com limão feito pelo seu Joel Garapeiro, um amigo da família que dava uma dose enorme como chorinho... Era como se tomássemos um copo duplo! O que também marcava o fim do passeio era a compra da melancia... Se hoje temos melancia o ano todo, naquela época, esperávamos o Dia de Finados para saboreá-la... Meu pai me ensinou uma técnica: a fruta deveria estar com cabo e este não podia estar seco. Além do mais, tinha que dar 3 tapinhas para ver se ela não estava chocha. O gostoso era chegar em casa, abrir a melancia, chupá-la no quintal e disputar, com meus irmãos, quem conseguia cuspir a semente mais longe! O perdedor varria toda a sujeira!!!
Como vocês puderam perceber, eu não ficava triste no Dia de Finados! E você? Nesse feriado, você festeja algo? Quais são suas lembranças? Conta pra gente nos comentários...

*Escrito por Fabio Augusto e publicado no blog: sementesdementes.blogspot.com*

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